7 de out. de 2020
Preparo e Trabalho Intelectual – A.-D. Sertillanges
O presente post trata de notas retiradas do livro A Vida Intelectual escrito por Sertillanges, padre francês que conta com uma vasta produção literária dedicada ao pensamento tomista. Na obra em questão são discutidos os dezesseis conselhos deixados por São Tomás de Aquino para aqueles que pretendem dedicar-se à uma vida de estudos; de produção intelectual.
A seguir estão destacadas as notas retiradas dos capítulos VII e VIII, que versam sobre a preparação do trabalho e o trabalho criador, respectivamente.
Veja também: A VIDA INTELECTUAL - A.-D. SERTILLANGES
A preparação do trabalho
1. A leitura
Ler pouco: temos que ler inteligentemente, e não apaixonadamente. Vamos aos livros como a dona de casa vai ao mercado, já tendo a lista do dia definida conforme as leis da higiene e de uma prudente economia. A leitura desordenada entorpece o espirito, não o alimenta; torna-o pouco a poco incapaz de reflexão e de concentração, e por conseguinte de produção; exterioriza-o por dentro, e torna-o escravo de suas imagens mentais, desse fluxo e refluxo do qual ele se torna um ardoroso expectador.
O trabalhador sensato, mantendo o domínio sobre si, calmo e livre, só lê o que pretende reter, só retém o que lhe deve servir, organiza seu cérebro e não o embrutece com uma carga absurda.
A redução deve recair sobretudo sobre as leituras menos substanciais e menos sérias. Mais importante ainda é jamais ler quando poder recolher-se; leia, exceto nos momentos de distração, unicamente o que se relaciona ao objetivo determinado, e leia pouco, para não devorar o silêncio.
Escolher os livros: não acreditar nas propagandas interesseiras, nem nos títulos aliciantes. Ter conselheiros fieis e peritos. Só beber nas fontes. Frequentar somente a elite dos pensadores. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais, é fácil em matéria de leitura. Temos que aproveita isso! Só ler em primeira mão, lá onde brilham as ideias mestras e desprezar as obras malfeitas, que provavelmente, são mal pensadas.
Quatro espécie de leituras: há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo/edificação, e leituras de repouso. Todas essas leituras devem ser feitas à luz das nossas observações; cada uma apresentar suas exigências particulares. As leituras de fundo exigem docilidade (acreditar no seu mestre), as leituras de ocasião, maestria (com três ou quatro especialistas sobre a matéria), as leituras de estímulo, ardor, as leituras de repouso, a liberdade.
O contato com os gênios: recordar de vez em quando aqueles que brilham com especial fulgor no firmamento da inteligência é folhear nossos títulos de nobreza. O contato com os gênios proporciona-nos como benéfico imediato uma elevação; somente por sua superioridade já nos gratificam, antes mesmo de nos ensinarem alguma coisa. Dão-nos um tom; acostumam-nos ao ar das alturas.
Conciliar em vez de opor: uma condição essencial para aproveitar bem as leituras é procurar sempre conciliar seus autores em vez de contrapô-los, pois insistir indefinidamente sobre as diferenças é vão; procurar os pontos de contato é a investigação fecunda.
Apropriar-se e viver: a fonte do saber não está nos livros; está na realidade, no pensamento. Os livros são placas de sinalização; a estrada é mais antiga, e ninguém pode fazer por nós a viagem para a verdade. O que um escritor disse não é o mais importante; o que nos interessa é aquilo que é, e nosso espírito deve se propor não a repetir, mas a compreender, ou seja, a aprender com ele, ou seja, a absorver vitalmente, e finalmente pensar por si mesmo.
2. A organização da memória
O que se deve reter: grave somente aquilo que pode ajuda-lo a conceber ou a executar, que pode se assimilado em sua alma, corresponder a seus objetivos, vivificar sua inspiração e alicerçar sua obra. Quanto ao resto, entregue ao esquecimento. O que cada um deve procurar conservar em plena luz na sua cabeça e disponível à primeira solicitação é o que constitui a base do seu trabalho, aquilo que sabem, pelo mesmo motivo, todos os espíritos eminentes da sua profissão.
Em que ordem reter: Acumular indiscriminadamente é torna tudo inutilizável, e condenar-se a só conseguir lembrar algo por acaso. Então busque sempre o que relaciona uma coisa com a outra, o que condiciona esta ou aquela, e que seja essa coordenação, e não fragmentos esparsos, que se estabeleça em sua memória.
Conserve antes de tudo as ideias mestras; que elas apresentem-se à primeira chamada, prontas a esclarecer tudo que se oferece, a manter em sua posição, apesar de novos aportes, as ideias antigas, a se desenvolverem elas mesmas por ocasião de cada progresso.
Como reter: ponha sua atenção nas ligações e nas razões de ser das coisas; analise, busque os porquês, observe a genealogia dos acontecimentos, as sucessões e as dependências, imite a ordem matemática, onde a necessidade parte do axioma e chega às mais longínquas conclusões.
Torne-se capaz de, logo depois de ler ou ouvir o que estuda, reproduzi-lo na medida precisa em que deve ser fixado. No caso de um livro, não o abandone sem que possa resumi-lo, apreciá-lo. Um contato ativo com a obra ajuda sua memorização.
3. As notas
Como anotar: podemos distinguir duas espécies de notas. Uma correspondente à preparação longínqua e outra à preparação imediata do trabalho. A primeira categoria tem a característica de ser um pouco fortuita; somente os limites de sua especialidade e a sua sabedoria podem reduzir a dose de acaso. Ao contrário, quando você anota para produzir, tendo essa produção um caráter definido, as notas também se definem, seguem de perto o assunto escolhido e formam um todo mais ou menos orgânico.
Nos dois casos, devemos evitar os excessos, um acumulo de matérias em que depois nos embrulhamos e que se tornam inutilizáveis.
Tenha notas tomadas com reflexão, evitando sempre o perigo de tomar notas sobre a esmos com cada expressão entusiástica. Tome tempo, com calma e uma boa distância somente o bom grão será armazenado.
Graças às notas, pode ser que uma obrar já esteja acabada antes mesmo de ter sido começada; todo seu valor será determinado pelas notas. O plano encontra-se nelas em estado latente, no qual diversas combinações são possíveis; mas a matéria já está reunida, dominada, e você está seguro de que, estabelecido o plano, ele corresponderá a uma concepção rela, a ideias que você possui, não a ideias que você ainda terá que buscar.
As notas assim compreendidas, não podem ser feitas nas horas vagas, pois são trabalho efetivo, e devemos reservar sua pesquisa para o chamamos de momentos de plenitude (em que o espírito está totalmente aplicado ao trabalho).
Como classificar as notas: o melhor método é aquele que experimentamos, confrontamos com nossas necessidade e hábitos intelectuais, e consagramos através de uma longa prática. Mas o método mais prático é o das fichas, que, independentemente do meio, deve permitir novos complementos, bem como uma classificação por categorias.
Classificar supõe que você já tenha adotado um método de classificação em acordo com o seu trabalho. Catálogos de assuntos, com divisões e subdivisões, permitem um acesso rápido e prático às notas.
Como utilizar as notas: um plano detalhado pode sugerir o uso correspondente das notas necessárias para o desenvolvimento de um trabalho. Numerar as pesquisas já realizadas em uma ordem coesa com base no objeto de estudo em questão, será o ideal para evocar as notas que lhe concernem. Classifique os grupos e redija então o trabalho colocando à sua frente, sucessivamente, o conteúdo de cada grupo. Havendo lacunas, novas pesquisas devem ser realizadas para complementar o domínio sobre o assunto. Copie suas preposições na ordem obtida, seguindo uma numeração marginal que possa ser corrigida se necessária uma melhor ordenação, ao final sua redação estará preparada.
O trabalho criador
1. Escrever
Um órgão que se exercita cresce e se fortalece; um órgão fortalecido age com mais potência. Deve-se escrever ao longo de toda vida intelectual. Quem nada produz habitua-se a passividade, aumenta o medo que provém do orgulho da timidez.
Falar é ouvir a própria alma; quem escreve fala consigo mesmo e comunica aos outros. Quem escreve assim, sem orgulho nem artificio, como que para si mesmo, fala na verdade para toda a humanidade, se tiver talento para lançar à distancia uma palavra verídica. A humanidade se reconhecerá nesse discurso, pois foi ela quem inspirou. Não é à toa que todas as grandes obras falam sobre você.
O estilo forma-se junto com o escritor. É preciso formar por dentro e por fora o seu próprio verbo. As qualidades do estilo se resumem em: verdade, individualidade e simplicidade. O grande estilo consiste na descoberta das relações essenciais entre os elementos do pensamento, e na arte de exprimi-los sem nenhum rodeio. A verdade do estilho afasta o clichê.
Procure escrever na forma inevitável, a partir do pensamento preciso ou do sentimento exato que quer exprimir. Seu objetivo é ser compreendido por todos, como convém a um homem que fala para outros homens, e busque atingir neles tudo o que é direta ou indiretamente um órgão da verdade.
2. Ser constante, paciente, e perseverante
É preciso trabalhar com uma constância que acompanha a obra, com uma paciência que suporte as dificuldades, com uma perseverança que evite o desgasto da vontade.
Nós queremos ser intelectuais o tempo todo, e que isso seja reconhecido. Saberão quem nós somos pela nossa maneira de descansar, de divertir-nos, pela forma com que amarramos os sapatos: com mais razão ainda o verão pera nossa fidelidade ao trabalho, pelo retorno habitual à tarefa e por sua continuidade.
O primeiro sinal de fadiga não deve ser levado em conta; é preciso superá-lo, forçar a energia interior. Pouco a pouco, com as engrenagens em movimento, adaptamo-nos, e um período de entusiasmo pode suceder-se à penosa inércia.
Seja qual for a causa, é preciso saber atravessar as dificuldades sem esmorecer, conservando o domínio de si mesmo. Uma dificuldade vencida ensina-lhe a vencer outras. O trabalho duro equivale a um trabalho fecundo e alegre. Essa tenacidade contribuirá para tornar o labor cada vez mais fácil. Persista, sustente o golpe, tenha paciência.
O verdadeiro intelectual é por definição um perseverante.
3. Tudo fazer bem e tudo terminar
A vocação intelectual não admite concessões; você deve se entregar por inteiro. Perante cada detalhe, diga para si mesmo: tenho o dever de fazê-lo, e também de fazê-lo bem feito, pois o que não se completa nada é.
Dê o máximo na hora da criação. Gerada a obra, trate-a como a criança que é alimentada e educada, mas cuja hereditariedade já está determinada, cuja características fundamentais já estão definidas. Ticiano retomava suas obras a fundo, mas segundo a forma primeira, unicamente para aperfeiçoá-la; não modificava em nada a concepção, as linhas fundamentais. O esforço já fora feito; tratava-se de complementá-lo.
4. Não empreender nada que esteja acima de sua capacidade
“Não busque o que está acima de ti” é o último dos dezesseis preceitos tomistas e nele está incutido o fato de que só devemos empreender conforme nossas forças, de só dizer o que sabe, de não forçar-se a pensar o que não se pensa, a compreender o que não se compreender e evita o perigo de eludir as substancias das coisas cuja ausência se disfarça com palavras pomposas.
O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates não é somente a chave da mora, é também a de toda a vocação, pois ser chamado a alguma coisa é ver assinalado um caminho para si dentre a amplitude das trajetórias humanas.
Como me perguntaste, João, caríssimo irmão em Cristo, como deves estudar para adquirir o tesouro da ciência, eis os conselhos que te dou a esse respeito.
1. Escolhas entrar no mar pelos regatos, não diretamente, pois é pelo que é fácil que convém chegar ao mais difícil. Este é, portanto, o meu conselho, e uma instrução para ti.
2. Quero que sejas lento para falar e lento para dirigir-te ao parlatório.
3. Guarda a pureza de consciência.
4. Nunca deixes de dedicar-te à oração.
5. Frequenta com amor tua cela, se queres ser introduzido na adega de vinhos.
6. Mostra-te amável com todos.
7. Não te preocupes com as ações dos outros.
8. Não sejas familiar demais com ninguém, pois o excesso de familiaridade engendra o desprezo e dá ocasião para afastar-se do estudo.
9. Não te envolvas de maneira alguma com as palavras e ações dos leigos.
10. Evita sobretudo os passeios inúteis.
11. Não deixes de imitar a conduta dos santos e dos homens de bem.
12. Não consideres de quem ouves as coisas, mas tudo o que se disser de bom, confia-o à tua memória.
13. Tudo que leres e ouvires, põe em prática, para o compreenderes.
14. Esclarece tuas dúvidas.
15. Esforça-te para armazenar tudo que puderes na biblioteca do teu espírito, como quem enche um vaso.
16. Não busques o que está acima de ti.
Se seguires este caminho, enquanto tiveres vida produzirás e multiplicarás folhas e frutos úteis na vinha do Senhor dos Exércitos. Se praticares estes conselhos, poderás alcançar o que desejas. Adeus.
30 de set. de 2020
Lucros e Perdas – Ludwig Von Mises
Originalmente apresentado durante a quarta reunião da Sociedade Mont Pèlerin, que teve seu lugar em Beauvallon/França, em setembro de 1951, o artigo Perdas e Lucros trata-se de uma autêntica defesa da economia de mercado, bem como do papel central exercido pelo agente empreendedor, que para auferir ganhos, deve, necessariamente remover desajustes (oportunidades) que são percebidos e encontrados no ambiente de mercado. A remoção do mecanismo proporcionado pelos lucros e perdas, tem consequências drásticas para a sociedade, sendo o atraso econômico e a limitação das liberdades civis, as principais características das sociedades que estigmatizam o lucro e o papel do empreendedor no mercado.
1 – A emergência dos lucros e das perdas
O curso da produção determinado pelos empreendedores em uma economia capitalista está totalmente condicionado à soberania dos consumidores. Se os empreendedores fracassam em entregar da melhora maneira, e mais barata possível, aquilo que os consumidores demandam com maior urgência, sofrem perdas e finalmente são substituídos por agentes mais capazes.
Como o lucro surge? As variáveis possibilidades de alocação de recursos escassos gera um estado de constante desajuste, onde consumidores podem estar adquirindo produtos por preços maiores do que poderiam encontrar, enquanto vendedores podem estar vendendo a preços menores do que poderiam cobrar. O lucro, ou a perda, surge, através da ação daquele que se julga capaz de empreender uma arbitragem de mercado, ao comprar alguns ou todos os fatores de produção a preços, que, do ponto de vista do estado futuro de mercado, são mais baixos no momento da compra.
No momento da venda é que será verificada a diferença entre os custos totais de produção e o preço de fato pago pelo consumidor. Sendo positiva, poderá indicar que o empreendedor julgou de maneira correta os preços futuros de mercado no momento em que optou pela compra dos fatores de produção. Se por outro lado, o custo total da produção excede o preço no qual foi vendido a produção, tem-se aí uma perca empreendedora daquele que julgou de maneira equivocada as informações fornecidas pelo mercado. Em comento, o Professor Hans-Hermann Hoppe argumenta que, embora seja possível determinar com exatidão a quantidade de dinheiro que um capitalista ganhou ou perdeu no transcurso do tempo, a perda ou lucro monetário nada dizem sobre o estado de felicidade do capitalista, isto é, sobre o lucro ou a perda psicológica.
Se todas as pessoas conseguissem antecipar corretamente o estado futuro de mercado, simplesmente não haveria qualquer possibilidade de lucro, nem de perdas. Todos comprariam fatores de produção a preços que, já no instante da compra, refletiriam completamente os preços futuros dos produtos. É o que ocorreria no hipotético estado de equilíbrio apresentado pelos economistas neoclássicos, em que todos os dados/informações do mercado já estão dados. Entretanto, os austríacos partem do pressuposto de que os mercados, apesar de apresentarem uma tendência para equilíbrio, nunca o encontram. Em seu ensaio, Mises argumenta que lucros e perdas são características próprias de um estado de incerteza, onde incessantes mudanças nos dados econômicos produzem repetidamente novas discrepâncias (desajustes), o que gera, consequentemente, a necessidade de novos ajustamentos.
2 - Proventos não se confundem com lucros
Para o observador leigo, pode parecer que a atividade realizada pelos empregados contratados para consecução de uma produção, seja a verdadeira atividade empreendedora, e aqueles que detém os meios de produção são meros parasitas ociosos que embolsam os dividendos provenientes da produção. Entretanto, é importante ressaltar que atividade empresarial consiste em tomar decisões, ou seja, determinar para que fins os fatores de produção devem ser empregados. E pra isso, são necessários bens de capital que são anteriores e complementares aos fatores de produção presente.
Desta forma, Mises diferencia os empreendedores daqueles que não o são: os empreendedores são aqueles sobre os quais incidem perdas sobre o capital empregado. Os economistas amadores podem confundir lucros com outros tipos de entradas, no entanto, é impossível falhar no reconhecimento das perdas sobre o capital empregado (de forma complementar, Knight identifica a atividade empresarial com controle e a responsabilidade – devendo a última ser compreendida como o ato de arcar com a incerteza).
3 – A votação do mercado: a soberania do consumidor
É por intermédio das compras e abstenções de comprar, em uma espécie de plebiscito, que os consumidores elegem diariamente os empreendedores que devem ou não participarem do processo de mercado. Como essa votação sempre é realizada com base em experiencias anteriores, ainda que aquele empreendedor eleito no passado ao servir melhor os consumidores, nada o garante na continuidade de seus negócios, uma vez que a escolha realizada pelos consumidores não é inalterável, sendo corrigida diariamente. O eleito que desaponto o eleitorado é rapidamente enviado de volta as fileiras.
Cada voto dos consumidores acrescenta somente um pouco a esfera de ação do homem eleito. Para atingir os níveis mais elevados do empreendedorismo, precisa obter um grande número de votos, repetidos uma e outra vez durante longo período de tempo – uma série prolongada de proezas bem sucedidas. Deve estar, todos os dias, sujeito a novo julgamento, deve submeter-se, mais uma vez, à reeleição por assim dizer.
Os críticos que se baseiam pelas doutrinas da competição imperfeita e monopolística podem questionar se o sucesso do empreendedor se deve somente ao processo de mercado, ou se o próprio empreendedor também contribui para emergência de seus lucros ao limitar sua produção, pois se não fosse pela restrição intencional da produção, a oferta de um bem especifico seria tão ampla que o preço teria caído a um ponto no qual não teria havido nenhum excedente de proventos acima dos custos de produção.
Ora, de um ponto de vista retrospecto, é fácil mostrar capacidade de previsão (como o analista da bolsa de valores passada, que diz que se tivesse comprado uma ação antes de sua valorização atual, estaria hoje rico).
Entretanto, dois fatores impedem que tal cadeia de raciocínio se suceda:
a) escassez dos fatores de produção: que a produção de uma mercadoria p não seja maior do que realmente é, se deve ao fato de que os fatores completares de produção necessários a uma expansão foram empregados na produção de outras mercadorias. Neste quesito, entra a questão da falibilidade dos julgamentos realizados pelos empreendedores; suas escolhas quanto ao melhor emprego dos fatores de produção nos projetos que acreditam que irão satisfazer as demandas mais urgentes (proporcionando assim um maior lucro), são falhos. Porém, falhas constantes são afastadas pela soberania do consumidor, que invariavelmente elegem aqueles empreendedores mais capazes, ou menos desastrados do que os demais.
b) escassez do capital: a tarefa do empreendedor é selecionar, dentre a multidão de projetos tecnologicamente factíveis, aqueles que satisfarão às necessidades mais urgentes do público – que ainda não foram satisfeitas. Os projetos para cuja execução a oferta de capital não suficiente, por obvio, não podem ser executados.
Assim, palpites “elevados” sobre o que deveria ser produzido no lugar das coisas que são demandadas pelas massas, não podem prosperar. A popularidade dos automóveis, smartphones, e meias de náilon, se deve ao fato de que as pessoas anseiam tais coisas, ao depositar seus votos naqueles empreendedores que oferecem essas mercadorias com a melhor qualidade possível e pelo preço mais baixo. Os empreendedores obtêm lucros servindo aos consumidores, as pessoas, tais como elas são, e não como deveriam ser de acordo com o capricho de um crítico que se julga mais sábio do que as massas (um ditador em potencial).
4 – A função social dos lucros e das perdas
As pessoas concebem o que são lucros excessivos de acordo com o lucro obtido em um empreendimento, medindo-os como porcentagem do capital. Entretendo, o que gera lucros ou perdas não é o capital empregado, como supõe Marx. Bens de capital são coisas mortas que, em si mesmas, não realizam nada. É a decisão empreendedora que cria lucros ou perdas. Os lucros originam-se de ações mentais, ou seja, são produtos da mente, do sucesso em antecipar o estado futuro do mercado.
Ao estigmatizar os lucros como excessivos e penalizar os empreendedores eficientes por meio de tributação, as pessoas se prejudicam a si mesmas. Taxar os lucros corresponde a taxar o sucesso por melhor servir ao público. O único objetivo de todas a atividade empreendedora é empregar os fatores de produção de tal maneira que rendam a maior quantidade de produção possível. Quanto menor se torna a quantidade de insumos necessários para a produção de um artigo, maior a porção dos fatores de produção escassos que são deixados para a produção de outros itens. Mas, quanto melhor um empreendedor se sair com relação a isso, mais será vilipendiado e mais será explorado pela tributação. Um custo maior por unidade de produto (desperdício) é elogiado como virtude.
Lucros e perdas são instrumentos por meio dos quais os consumidores transferem a direção das atividades de produção para as mãos daqueles mais capazes. Penalizar os lucros prejudica tal função, dificulta a criação de poupança e acumulação de capital, que por sua vez impede a consecução de empreendimentos que requerem um maior acumulo de capital, tornando assim a econômica cada vez mais ineficiente e estagnada.
5 – A abolição dos lucros e suas consequências
Aqueles que desejam abolir os lucros se orientam pela ideia que seu confisco melhoraria o bem-estar material de todos os que não são empreendedores. Desta forma, as políticas de todos os governos que adotaram ao socialismo por completo aplicam esses três esquemas em conjunto:
a) Abolir os lucros em favor dos consumidores: força o empreendedor a vender seus produtos por preços que não excedam os custos de produção despendidos. Dado que tais preços se encontram abaixo do potencial de mercado, a oferta disponível não será suficiente para garantir que todos os que desejam comprar possam adquirir os artigos por esse preço. O mercado ficará paralisado pelo decreto de preços máximos e não poderá alocar os produtos entre os consumidores. O racionamento terá de ser adotado.
b) Abolir os lucros em favor dos empregados: a incidência das perdas incorridas recai sobre o empreendedor, enquanto os lucros ficam com os empregados. É provável que os efeitos de tal arranjam façam com que as perdas aumentem e os lucros diminuam. De qualquer maneira, uma parte maior seria poupada e reinvestida novamente no empreendimento. Nenhum capital estaria disponível para o estabelecimento de novos ramos de produção, nem para a transferência de capital dos ramos que – em conformidade com a demanda dos consumidores – deveriam escolher para os ramos que deveriam se expandir (pois a transferência acarretaria a perdas daqueles que estão empregados no empreendimento que será transferido). Se tal esquema tivesse sido adota há meio século, todas as inovações que foram realizadas nesse período teriam sido impossíveis.
c) Confiscar todos os lucros para benefício do estado: uma taxa de cem por cento sobre os lucros realizaria essa tarefa. Transformaria os empreendedores em administradores irresponsáveis, pois já não estariam sujeitos à soberania dos consumidores. Seriam apenas pessoas que teria o poder de lidar com a produção da maneira que lhes agradasse mais.
O efeito conjunto da aplicação dessas políticas já se encontra, atualmente, produzindo o caos. O capitalismo não pode sobreviver à abolição dos lucros. Lucros e perdas são aquilo que força os capitalistas ao emprego da capital para servir aos consumidores da melhor maneira possível. Lucros e perdas são aquilo que torna essas pessoas soberanas na conduta dos negócios mais adequados para satisfazer ao público. Se os lucros virem a ser abolidos, o resultado será o caos.
Os esforços para eliminar os lucros do sistema capitalista são meramente destrutivos. Cada passo dado em direção à eliminação dos lucros é um avanço pelo caminho que conduz à desintegração social. Ao escolherem entre capitalismo e o socialismo, as pessoas também escolhem implicitamente entre todas as intuições sociais que vêm como acompanhamento de cada um desses sistemas. Se o controle de produção for transferido das mãos dos empreendedores, eleitos novamente a cada dia pela votação dos consumidores, para as mãos do comandante supremo de Marx e Engels, ou para os trabalhados armados de Lenin, nenhum governo representativo poderá sobreviver, bem como nenhuma liberdade civil.
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As notas aqui utilizadas refletem diretamente aquilo que o autor do blog destaca da obra original durante a leitura da mesma, utilizando-se geralmente de citações diretas, indiretas e paráfrases, além de comentários pertinentes que podem ser retirados de outros trabalhos. As notas são criadas com o único intuito de fornecer um rápido acesso a consultas posteriores para estudo sobre o tema. Caso o leitor do blog tenha alguma dúvida ou gostaria de complementar algo, fique à vontade para deixar um comentário logo abaixo ou entre em contato mediante o instagram @waldeirmarques, ou email.
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9 de nov. de 2019
Pensar de outra forma é a pretensão de conhecimento
Enquanto o direito à vida/propriedade/liberdade é facilmente relativizado, o comando segundo o qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado deve ser interpretado por sua literalidade. É o que diz os deuses do STF e os muitos constitucionalistas que dominaram o direito em um banco da academia ou através das redes sociais. Falando em constituição, que pedaço de papel magnífico! Reúne os mais valiosos preceitos de uma casta que se julga capaz de resolver todos os problemas da sociedade na base do monopólio do uso da força, do controle e do roubo legalizado. Separado da ética e da moral, o próprio controle fez brotar o nazismo, dentre outras inúmeras arbitrariedades. Porém, parece que esquecemos ou ninguém aprendeu direito.
Se o legal do estado democrático era deixar a garantia dos direitos humanos/fundamentais a cargo do aparato estatal, agora a tese inverte-se completamente, uma vez que vamos deixar de punir aqueles com condições de recorrer até a última instância, tais como homicidas, feminicidas, agressores de mulheres e indefesos, chefes do crime organizado, corruptos e toda uma série de animais que deveriam viver reclusos, mas que, apesar de condenados, seguiram livres sobre a égide da constituição até que seus crimes prescrevam.
O país que beira um milhão de homicídios nas últimas duas décadas e detém os maiores esquemas de corrupção da humanidade agora inova com suas peças teatrais que fingem julgar nos tribunais gente da pior espécie que por azar caiu nas graças de um inquérito. Quem é bom de imaginação - para acatar o pedaço de papel é preciso muita - faça a caridade de criar uma desculpa para as vítimas e familiares que lamentam tamanha impunidade.
Melhor. Você que idolatra o estado constitucional com tanta disposição, continue, se entregue por completo, esbanje toda essa soberba e mau-caratismo político como quiser, MAS FAZ O FAVOR DE NÃO MISTURAR AS COISAS! O Direito surge de uma ordem espontânea tal qual a língua e o comércio. É fruto de infinitas interações voluntárias no decorrer da história. Já aquilo imposto a um grupo de indivíduos sem o seu consenso, é pura servidão.
Ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão.
15 de ago. de 2019
A Vida Intelectual - A.-D. Sertillanges
1. A vocação intelectual
2. As virtudes de um intelectual
3. A organização da vida
4. Sobre guardar a solidão
5. O tempo do trabalho intelectual
6. O espírito de trabalho
22 de fev. de 2019
Precisamos falar sobre sindicatos!
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Leitura recomendada: Rumo a uma Sociedade Libertária - Walter Block
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