17 de out. de 2021
Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski
O que leva uma pessoa a matar a sangue frio? O que está por trás da mente de um assassino? Qual arranjo político-filosófico de uma sociedade que faz brotar pessoas desse tipo?
Foi ao levantar essas questões que Fiódor Dostoiévski escreveu um dos mais conhecidos trabalhos de toda a literatura russa; Crime e Castigo.
Ao deixar para trás uma carreira militar promissora em troca da escrita, o jovem Dostoiévski foi atraído pelos ideais socialistas e revolucionário que ganhavam espaço na subcultura russa por meio de círculos secretos de discursões intelectuais sobre obras banidas pelo Império Tsarista.
Após a exposição do grupo frequentado por Dostoiévski, seus participantes, incluindo o próprio Dostoiévski, foram sentenciados a pena de morte.
No momento derradeiro, com a ordem de atirar prestes a ser executada, um mensageiro do governo surge com a notícia de que o Tsar havia substituído a pena de morte pela de trabalho forçado, de forma a demonstrar o quanto era misericordioso, ou seja, uma charada para os revolucionários que pensavam justamente o contrário. Um dos companheiros de Dostoiévski enlouqueceu ali mesmo (tal fato é inclusive descrito em detalhes em “O Idiota”).
Sem dúvidas, tal evento foi responsável por uma radical transformação dos ideais de Dostoiévski. Se no embarque para a Sibéria tínhamos um provável cético, membro de uma conspiração contra a ordem política vigente, o mesmo não pode ser atribuído ao Dostoiévski que retornou de sua pena; um autor que fez da escrita sua religiosa missão, com uma visão social e política cada vez mais íntima dos ideais conservadores.
Após sua jornada na Sibéria, com uma visão pessimista acerca da reforma socialista, foi em 1864 que nasceu Memórias do Subsolo, onde Dostoiévski expõe ao limite os ideais revolucionários difundidos pelos autores da época (em especial Tchernichevski e seus seguidores), ao demonstrar que tais ideias são incapazes de satisfazer os interesses mais profundos na natureza humana.
Na mesma pegada, Crime e Castigo foi concluído no ano seguinte, em 1865, retrabalhando e expandindo os temas discutidos em Memórias do Subsolo.
Primeiramente publicado em formato de série em uma revista literária conduzida pelo próprio irmão de Dostoievsky, o romance trata do drama psicológico enfrentado por Raskólnikov, um jovem estudante de direito, tendo como palco a cidade de São Petersburgo.
Raskólnikov vive na mais completa miséria; sem trabalho, sem dinheiro, sem comida e só não sem teto pela misericórdia do autor, que permite, com propósito, a morada do herói no quarto mais abjeto e claustrofóbico de um alojamento petersburguense.
Sem condições de custear seus estudos e ao perceber o quanto sua mãe e irmã têm se sacrificado pelo seu sucesso, Raskólnikov chega ao que inicialmente seria a resolução de todos os seus problemas; o latrocínio de uma velha agiota, a qual Raskólnikov penhorou seus últimos bens.
Apesar de toda a justificativa racional criada por Raskólnikov para cometer tal crime, é evidente que o personagem não estava nenhum pouco preparado para as consequências do seu ato vil.
É justamente ao descrever a corrompida mentalidade de Raskólnikov, por meio de um processo literalmente psicográfico, que Dostoievsky assina sua consagrada obra.
Crime e Castigo dá vida às frias ruas de São Petersburgo do desfechar do sec. 19, com suas tavernas sombrias, apartamentos dilapidados, e uma repugnante delegacia.
Neste ponto, cabe destacar que, uma vez que o leitor é trancado na mente do controverso personagem central da história, tal ambientação se trata da própria ótica doentia de Raskólnikov sobre a cidade. Ora, tudo é sombrio para quem vive nas sombras. O que explica, por exemplo, o fato do quarto do personagem, apesar de ser descrito como um cubículo, conseguir comportar cenas com cinco ou mais personagens.
Ademais, cumpre destacar que este retrato desolado da sociedade Russa reflete também a própria complexidade das experiências vivenciadas pelo Autor.
E é nessa mesma ambientação que Dostoiévski introduz ao leitor personagens únicos, como Mameladov, um miserável alcoólatra capaz de beber até a ruina de sua família, e Lújin, o tirânico advogado interessado em comprar o casamento de Dúnia, a pura, bela e amável irmã de Raskólnikov.
E como não falar em Porfiri? Juiz de instrução encarregado em desvendar o assassinato da velha agiota, cirúrgico em seus jogos psicológicos sobre a mente do enigmático Raskólnikov, que aos poucos deixa se entregar por meio de suas próprias ações/declarações.
Vale frisar que o desenrolar da trama de Crime e Castigo não se limita ao mero desvendar do crime cometido por Raskólnikov, que na verdade serve apenas como pano de fundo para a história. A genialidade da obra está na exposição dos ideais que levam o herói a cometer ato tão bárbaro, bem como seus desdobramentos.
Para Raskólnikov existe uma razão que justifica o seu crime. O assassinato da velha agiota, não só resolveria a situação financeira e a vida do herói, mas também serviria um proposito maior, pois removeria da sociedade uma pessoa que se aproveita da miséria alheia, uma pessoa que, na mente racional de Raskólnikov, em nada contribuía para a sociedade, logo a sua morte seria algo benéfico, utilitário.
Ora, para Raskólnikov o assassinato da velha agiota era tão justificável quanto todo o derramamento de sangue das guerras napoleônicas, tanto que o próprio chegou a produzir um artigo completamente racional sobre o assunto.
É com essa egocêntrica razão que Raskólnikov acredita ser capaz de transcender tabus morais, sem nenhum custo para sua existência humana. É quando Dostoiévski, nos mostra, então, através do dilema psicológico enfrentado por Raskólnikov, a verdadeira natureza do castigo imposto ao personagem. Castigo este infligido pela própria razão.
Nas palavras de Raskólnikov;
Dor e sofrimento são sempre inevitáveis para uma inteligência ampla e um coração profundo.
Após uma primeira leitura, creio que ainda que fosse possível revisitar Crime e Castigo por mais cem vezes, mesmo assim não seria o suficiente para digerir toda a obra. Então, quem sabe, essas notas sirvam de comparação para visitas futuras.
Até a próxima.
Caso tenha gostado, veja também: Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski
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29 de nov. de 2020
Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski
De acordo com a introdução de Richard Pevear, tradutor da edição publicada pela Everyman's Library, Memórias do Subsolo (1864) trata-se de um antilivro por reunir características que conflitam diretamente com a literatura popularmente empregada no pensamento russo (Pushkin, Lérmontov, Tchernichevski, Kant, Schiller, Byron, Rousseau, e, principalmente, Niztche) durante a época em que foi escrito.
O livro consiste em notas do homem do subsolo, não em notas do próprio Dostoiévski, mas é como se assim o fosse, dada a coincidência entre as notas e as declarações do autor. Tanto que muitos estudiosos afirmam que o livro se trata das próprias posições ideológicas de Dostoiévski, além da sua trágica e triste visão. Entretanto, existe uma diferença entre personagem e autor, que consiste em uma dose extra de sarcasmo encontrada somente no homem do subsolo. São incontáveis os ataques de risos e deboche durante a narrativa.
E é justamente a partir de Memórias do Subsolo que Dostoiévski parece ter encontrado um estilo propício para suas próximas obras (cita-se; Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamazov). É através do distanciamento com seus personagens, que o autor se tona capaz de apresentá-los por diferentes ângulos, ao passo que mantêm intacto o seu pensamento.
Quem é o homem do subsolo?
Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável.
O homem do subsolo é a encarnação legítima do pensamento revolucionário que tanto Dostoiévski nos alerta de seus desdobramentos. O homem do subsolo é um ser desprezível, rancoroso, que, em um primeiro momento, assume uma posição heroica, de salvador da humanidade, que julga tudo saber resolver, para no parágrafo seguinte, assumir a sua covardia e sua incapacidade de resolver os próprios dilemas, o que vai desencadear um sofrimento ainda maior, pois suas ações refletem negativamente na vida daquelas pessoas das quais tiveram o azar de encontrá-lo. Se tudo que ele busca é mostrar o quão superior é o seu racionalismo, na prática sua vida não passa da mais miserável possível.
Por ser tão fraco, a ponto não conseguir escapar de uma vida medíocre, o homem do subsolo guarda um tremendo ressentimento para com todos, como no caso dos coitados subordinados quando o narrador era ainda um burocrata e usava sua posição para atormentá-los, ou no de seus ex-colegas de infância que claramente não desejavam a sua presença em um jantar entre verdadeiros amigos. Por último, temos ainda o imbróglio com Liza, a infeliz prostituta da qual o homem do subsolo prometeu ajudá-la a mudar de vida, mas que termina ainda mais humilhada por este.
O pensamento de Dostoiévski durante o processo de escrita de Memórias do Subsolo:
Quereis, por exemplo, desacostumar uma pessoa dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade, de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. Mas como sabeis que o homem não apenas pode, mas deve ser assim transformado? De onde concluís que à vontade humana é tão indispensavelmente necessário corrigir-se? Numa palavra, como sabeis que uma tal correção realmente trará vantagem ao homem? E, se é para dizer tudo, por que estais tão certamente convictos de que não ir contra as vantagens reais, normais, asseguradas pelas conclusões da razão e pela aritmética, é de fato sempre vantajoso para o homem e constitui uma lei para toda a humanidade?
[...] o homem é um animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha às vezes uma vontade de se desviar, justamente por estar condenado a abrir esse caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em saber para onde se dirige, mas simplesmente em que se dirija, e em que a criança comportada, desprezando a arte da engenharia, não se entregue à ociosidade destruidora, que, como se sabe, é mãe de todos os vícios. O homem gosta de criar e de abrir estradas, isto é indiscutível. Mas por que ama também, até a paixão, a destruição e o caos?
Gritais (se ainda vos dignais a dirigir-me o grito) que, no caso, ninguém me priva da minha vontade; que todos se afanam a fim de que, por si mesma, por própria iniciativa, minha vontade coincida com os meus interesses normais, com as leis da natureza e com a aritmética.— Eh, senhores, como é que se pode ter, no caso, sua própria vontade, quando se trata da tabela e da aritmética, quando está em movimento apenas o dois e dois são quatro? Dois e dois são quatro mesmo sem a minha vontade. Acontece porventura uma vontade própria deste tipo?
O homem não é uma tecla de piano: uma crítica ao igualitarismo utópico
Numa palavra, pode-se dizer tudo da história universal — tudo quanto possa ocorrer à imaginação mais exaltada. Só não se pode dizer o seguinte: que é sensata. Haveis de engasgar na primeira palavra. E aí está até o que a todo momento se dá: surgem continuamente homens de bons costumes, sensatos, sábios e amantes da espécie humana, que têm justamente como objetivo portar-se, a vida toda, do modo mais moral e sensato, iluminar, por assim dizer, com a sua pessoa, o caminho para o próximo, e precisamente para demonstrar a este que, de fato, se pode viver de modo moral e sensato. E então? É sabido que muitos desses amantes da humanidade, cedo ou tarde, às vezes no fim da existência, traíram-se, dando motivos a anedotas às vezes do gênero mais indecente até. Pergunto-vos agora: o que se pode esperar do homem, como criatura provida de tão estranhas qualidades? Podeis cobri-lo de todos os bens terrestres, afogá-lo em felicidade, de tal modo que apenas umas bolhazinhas apareçam na superfície desta, como se fosse a superfície da água; dar-lhe tal fartura, do ponto de vista econômico, que ele não tenha mais nada a fazer a não ser dormir, comer pão de ló e cuidar da continuação da história universal — pois mesmo neste caso o homem, unicamente por ingratidão e pasquinada, há de cometer alguma ignomínia. Vai arriscar até o pão de ló e desejar, intencionalmente, o absurdo mais destrutivo, o mais antieconômico, apenas para acrescentar a toda esta sensatez positiva o seu elemento fantástico e destrutivo. Desejará conservar justamente os seus sonhos fantásticos, a sua mais vulgar estupidez, só para confirmar a si mesmo (como se isto fosse absolutamente indispensável) que os homens são sempre homens e não teclas de piano, que as próprias leis da natureza tocam e ameaçam tocar de tal modo que atinjam um ponto em que não se possa desejar nada fora do calendário. Mais ainda: mesmo que ele realmente mostrasse ser uma tecla de piano, mesmo que isto lhe fosse demonstrado, por meio das ciências naturais e da matemática, ainda assim ele não se tornaria razoável e cometeria intencionalmente alguma inconveniência, apenas por ingratidão e justamente para insistir na sua posição. E, no caso de não ter meios para tanto, inventaria a destruição e o caos, inventaria diferentes sofrimentos e, apesar de tudo, insistiria no que é seu! Lançaria a maldição pelo mundo e, visto que somente o homem pode amaldiçoar (é um privilégio seu, a principal das qualidades que o distinguem dos outros animais), provavelmente com a mera maldição alcançaria o que lhe cabe: continuaria convicto de ser um homem e não uma tecla de piano! Se me disserdes que tudo isso também se pode calcular numa tabela, o caos, a treva, a maldição — de modo que a simples possibilidade de um cálculo prévio vai tudo deter, prevalecendo a razão —, vou responder-vos que o homem se tornará louco intencionalmente, para não ter razão e insistir no que é seu! Creio nisto, respondo por isto, pois, segundo parece, toda a obra humana realmente consiste apenas em que o homem, a cada momento, demonstre a si mesmo que é um homem e não uma tecla!
De fato, contar, por exemplo, longas novelas sobre como eu fiz fracassar a minha vida por meio do apodrecimento moral a um canto, da insuficiência do ambiente, desacostumando-me de tudo o que é vivo por meio de um enraivecido rancor no subsolo, por Deus que não é interessante: um romance precisa de herói e, no caso, foram acumulados intencionalmente todos os traços de um anti-herói, e, principalmente, tudo isto dará uma impressão extremamente desagradável, porque todos nós estávamos desacostumados da vida, todos capengamos, uns mais, outros menos. Desacostumamo-nos mesmo a tal ponto que sentimos por vezes certa repulsa pela “vida viva”, e achamos intolerável que alguém a lembre a nós. Chegamos a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor. E por que nos agitamos às vezes, por que fazemos extravagâncias? O que pedimos? Nós mesmos não o sabemos. Será pior para nós mesmos se forem satisfeitos os nossos extravagantes pedidos. Bem, experimentai, por exemplo, dar-nos mais independência, desamarrai a qualquer de nós as mãos, alargai o nosso círculo de atividade, enfraquecei a tutela e nós... eu vos asseguro, no mesmo instante pediremos que se estenda novamente sobre nós a tutela. Sei que talvez ficareis zangados comigo por causa disto, e gritareis, batendo os pés: “Fale de si mesmo e das suas misérias no subsolo, mas não se atreva a dizer ‘todos nós’”. Mas com licença, meus senhores, eu não me estou justificando com este todos. E, no que se refere a mim, apenas levei até o extremo, em minha vida, aquilo que não ousastes levar até a metade sequer, e ainda tomastes a vossa covardia por sensatez, e assim vos consolastes, enganando-vos a vós mesmos. De modo que eu talvez esteja ainda mais “vivo” que vós. Olhai melhor! Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é vivo, o que ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma ideia. Mas chega; não quero mais escrever “do Subsolo”...
Leitura fortemente recomendada, principalmente aos revolucionários contemporâneos.
Material Complementar:
O Homem não é uma tecla de piano – Prof. Jordan Peterson
Memórias do Subsolo – Interpretação por Larry Cedar
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Caso tenha gostado, veja também: Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski
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28 de out. de 2020
O Processo – Franz Kafka
Entre as leituras de Kafka é unânime o insight que diz respeito à gigantesca amplitude de interpretações que recebe a sua obra, mesmo essa se tratando de um trabalho relativamente enxuto, com pouco mais de 40 escritos conhecidos – número esse que poderia ser ainda menor se não fosse por Max Brot, amigo testamenteiro que não obedeceu ao último desejo do autor de destruir parte do trabalho original.
E, falando em ampla interpretação, em O Processo não poderia ser diferente. Ainda que se tratasse de um romance acabado, seria uma tarefa impensável atribuir uma única visão à trágica narrativa do protagonista Josef K. dada a quantidade de situações em que o autor vai de encontro às mais variadas perspectivas possíveis através de sua forma maestra de apresentar a futilidade dos cenários comuns.
Talvez resida justamente aí a genialidade de Kafka; futilizar as já fúteis trivialidades das quais todos estamos submetidos cotidianamente. Mas, como diria o ilustre Professor Rodrigo Gurgel “não devemos procurar uma solução definitiva para o Problema Kafka; esse é um problema de contínua análise”. Assim, as reflexões que ora apresento, indubitavelmente carecem de revisões posteriores (até o momento em que organizo tais notas, pude conferir apenas A Metamorfose e O Processo).
A seguir, vejamos então algumas notas acerca de trechos destacados de O Processo.
“Alguém devia ter caluniado Josef K., porque foi preso uma manhã, sem que ele houvesse feito alguma coisa de mal.”
Já nas primeiras linhas, a vida de Josef K., um gerente de banco na casa dos trinta anos, é posta ao avesso ao ser preso numa manhã por dois oficiais tão identificáveis quanto o motivo de sua prisão. O caso fica ainda mais obscuro quando K. não é levado pelos oficiais para uma prisão qualquer; a sua vida se torna uma prisão em si mesma. A partir daí o desenrolar desse processo juntamente com a incapacidade de K. de provar a sua inocência, irão consumir o protagonista até sua autodestruição. Uma vez que cada atividade cotidiana e social estará submetida ao processo, como se todos fizessem parte de um grande tribunal, a vida do acusado perde qualquer propósito pois não passa agora de um terrível labirinto burocrático.
K. tinha sido avisado por telefone de que no domingo seguinte realizar-se-ia um pequeno interrogatório no âmbito do seu caso. Observaram-lhe que tais interrogatórios se sucederiam regularmente, ou mesmo todas as semanas, pelo menos muito frequentemente.
Em sua primeira defesa diante da suposta audiência de instrução, sem ainda ter dado conta de sua inferioridade perante o processo, K. faz pouco caso do procedimento enfrentado:
A sua pergunta, Senhor Juiz de Instrução, a inquirir se sou pintor de prédios... aliás, o senhor não me perguntou nada, atirou-me esta declaração... é reveladora do conjunto do processo intentado contra mim. Pode objectar que não se trata de modo nenhum de um processo judicial, e tem inteiramente razão, porque não se trata de um processo judicial, salvo se eu lhe reconhecer essa qualidade. Ora, reconheço-a neste instante, por compaixão, por assim dizer.
Em seguida K. até reconhece a imponência do judiciário, mas não sem motivo. Uma critica é elaborada ao sistema inquisidor e seus funcionários:
(...) não resta qualquer dúvida de que por detrás de todos os procedimentos deste tribunal, portanto no meu caso preciso, por detrás da detenção e da presente instrução, dissimula-se uma vasta organização. Uma organização que não só emprega guardas corruptos, inspectores estúpidos e juízes de instrução modestos no melhor dos casos, mas sustenta além disso uma alta magistratura e uma magistratura suprema, com o seu incontornável cortejo de oficiais de diligências, de escrivães, de polícias e de outros auxiliares, talvez mesmo os seus carrascos, a palavra não me mete medo. E qual é o sentido desta vasta organização, senhores? Consiste em fazer prender pessoas inocentes e em intentar contra elas processos judiciais loucos e, na maior parte das vezes, como no meu caso, sem resultado.
Ao perceber inutilidade da defesa até então empregada, K. conclui:
É então isso! – exclamou K. erguendo os braços ao céu, porque era preciso espaço para esta súbita descoberta. – Vós sois todos funcionários, pelo que vejo, vós sois o bando de indivíduos corruptos que eu vilipendiei; vós acorrestes para me escutar e me espiar, fingistes formar partidos, e um deles aplaudiu-me para me pôr à prova; queríeis saber como enganar os inocentes. Ora bem, não viestes aqui para nada, espero; quer vos tenhais divertido a ver alguém esperar que tomásseis a defesa de um inocente... deixa-me em paz, ou bato-te – lançou K. à cara de um velho trémulo que se havia aproximado de mais –, quer pelo contrário tenhais realmente aprendido alguma coisa. E com isto, desejo-vos boa sorte no exercício do vosso ofício.
São vários os momentos em que Kafka deixa bem claro que a vida de K. não seria mais a mesma, assim como a de todos aqueles que aguardam o desenrolar de um processo. Uma decisão, um desfecho definitivo é tudo que se espera. Mas de fato, entre despachos e decisões interlocutórias, passam-se dias, meses e anos sem que nada se resolva. A eternidade parece coisa pequena diante do tempo forense. Em um trecho:
A ideia do processo já não o largava. Perguntava muitas vezes a si próprio se não seria bom preparar uma defesa por escrito e apresentá-la no tribunal. Queria fazer nela uma breve história da sua vida e, para cada facto mais significativo, explicar os motivos que haviam determinado os seus actos, em que medida este modo de agir lhe parecia retrospectivamente louvável ou condenável, e por fim que motivos podia invocar numa ou noutra hipótese. As vantagens de semelhante defesa sobre a que o advogado apresentava não ofereciam dúvidas. Para mais, se esse advogado não fosse irrepreensível. K. ignorava aliás que diligências o advogado estava a efectuar; não seria grande coisa, em todo o caso: havia já um mês que não o convocava, e em nenhuma das anteriores conversas K. tivera o sentimento de que este homem pudesse fazer alguma coisa por si.
É importante frisar o fato de que Kafka estudou Direito e trabalhou para uma companhia de seguros e para um instituto onde era responsável pela investigação e avaliação de compensação por danos pessoais para trabalhadores industriais, pois tais experiências em muito influenciaram a escrita de O Processo. Em alguns trechos é perceptível as observações diretas acerca do contato do autor com a burocracia judiciária, do qual ele detestava por lhe consumir tempo que poderia ser dedicado à escrita. Exemplo:
Segue-se que os documentos conservados no tribunal, e sobretudo a peça de acusação, são inacessíveis ao acusado e à sua defesa; por isso é que em geral não se sabe, ou pelo menos exactamente, sobre o que o primeiro requerimento deve tratar, de tal modo que só por efeito do acaso ele pode conter alguma coisa importante para o processo. É só mais tarde que se fica em condições de elaborar requerimentos com uma real pertinência e bem argumentados, quando durante as audições do acusado o pormenor dos artigos de acusação e o seu fundamento aparecem com mais nitidez, ou se deixam adivinhar. Nestas circunstâncias, a defesa encontra-se claramente numa situação muito desvantajosa e difícil. Mas isto é também propositado. Porque, na realidade, a lei não autoriza a defesa, tolera-a simplesmente; e a questão de saber se a alínea em causa deve ser interpretada pelo menos no sentido da tolerância, é ela própria controversa. Por isso não existem, estritamente falando, advogados da defesa que sejam reconhecidos pelo tribunal; os que intervêm perante este tribunal não passam todos, no fundo, de advogados ocultos.
E mais um outro:
De facto, o acusado não tem acesso aos processos do tribunal, e é muito difícil determinar a partir dos interrogatórios sobre que documentos eles assentam, particularmente para um acusado intimidado e distraído por toda a espécie de preocupações. Ora, é aqui que a defesa intervém. Em geral, os advogados não têm o direito de estar presentes nos interrogatórios; por isso, é depois do interrogatório, e se possível ao sair da sala de audiências, que eles devem sondar o acusado sobre o interrogatório, e nesses relatos já muito esbatidos encontrar elementos úteis à defesa. Mas isto não é o essencial, porque não se fica a saber grande coisa desta maneira, mesmo se, aqui como noutro lado qualquer, um homem hábil perceba mais do que os outros. O mais importante, apesar de tudo, são as relações pessoais do advogado: é o que determina principalmente o valor da defesa. Ora, pela sua experiência pessoal, K. tinha agora compreendido que a organização do tribunal, nos escalões inferiores, não é perfeita, inclui funcionários desleais e corruptos, o que provoca de certo modo falhas no sistema fechado do tribunal. E é por aí que se infiltra a maioria dos advogados, é aí que se suborna e que se escuta às portas; até houve, pelo menos nos primeiros tempos, casos de roubos de documentos. É indesmentível que desta forma se obtêm a curto prazo resultados espantosamente favoráveis ao acusado, o que dá a estes pequenos advogados matéria para se pavonearem e atraírem novos clientes; mas para o desenrolar ulterior do processo, isso não significa nada, ou nada de bom. Verdadeiro valor têm só as relações pessoais honestas, e isto com os altos funcionários, ou seja, claro, os altos funcionários dos escalões inferiores. É apenas por seu intermédio que se torna possível influenciar, por certo de uma forma ao princípio imperceptível, mas depois cada vez mais nítida, o desenrolar do processo. Claro que só um pequeno número de advogados o consegue (...).
Sobre o papel do advogado e o exercício da advocacia, Kafka observa:
Aqui percebia-se bem o inconveniente de uma justiça que estipula de início a inquirição secreta. Os funcionários não têm nenhum contacto com a população, estão habilitados para os processos ordinários, de uma importância corrente: um tal processo segue o seu curso quase por si próprio e apenas pede para ser ativado de vez em quando; mas perante os casos muito simples e os casos particularmente muito difíceis, encontram-se muitas vezes desamparados; confinados constantemente, dia e noite, na sua lei, não possuem o sentido das relações humanas, e isso falta-lhes cruelmente nos casos deste género. É então que vão procurar o advogado e pedir-lhe conselho, acompanhados por um oficial de diligências que transporta estes documentos habitualmente muito confidenciais. Nesta janela, puderam ver-se numerosos cavalheiros que ninguém esperaria aí encontrar, lançando à rua um olhar desolado, ao passo que no seu gabinete o advogado estudava as peças para lhes poder dar um bom conselho. Era aliás nestas ocasiões que se podia verificar a seriedade extrema com que estes senhores exercem a sua profissão, e o grande desespero em que os precipitam obstáculos que a sua natureza não lhes permite ultrapassar.
Sobre o interminável andamento processual:
Por certo, há horas sombrias, como todos já experimentaram, em que se julga nada ter realizado, em que se tem a impressão de que só os processos destinados desde o princípio a um desenlace favorável, terminam bem, mesmo sem ajuda exterior, ao passo que os outros perderam apesar de todas as diligências, de todas as fadigas, de todos os pequenos êxitos aparentes com que tanto se regozijavam. Então, nesses momentos, nada mais parece certo de que os processos, por si mesmos bem encaminhados, não foram desviados do seu curso senão por uma intervenção exterior.
Isto também é uma forma de confiança em si, mas é tudo o que então resta. Os advogados são particularmente expostos a este género de crises – porque são simples crises, claro, nada mais – quando de súbito lhes retiram um processo que eles conduziram tão longe e de maneira satisfatória. É sem dúvida o pior que pode suceder a um advogado. Não que seja o acusado que lhe retira o processo, isso nunca acontece, creio eu; um acusado, uma vez que tomou um advogado, deve conservá-lo sempre, seja o que for que suceda. Como poderia, com efeito, ele aguentar-se sozinho, depois de haver recorrido à sua assistência? Isto nunca sucede; mas acontece por vezes que o processo toma uma direcção em que o advogado já não tem o direito de acompanhá-lo. O advogado limita-se a ver ser-lhe retirado o processo, o acusado e tudo o resto; então, mesmo as melhores relações com os funcionários já não podem servir para nada, porque eles próprios não estão informados. O processo acaba por entrar numa fase onde é doravante impossível trazer qualquer ajuda, entre as mãos de tribunais inacessíveis e onde o advogado nem sequer pode contactar com o acusado. Regressamos então um belo dia a casa para achar em cima da secretária a montanha de requerimentos que foram redigidos com muito zelo e formando as mais belas esperanças para este processo: como não podem ser transmitidos neste novo estádio do processo, foram devolvidos; não são mais do que pedaços de papel. Dito isto, o processo não está perdido, de modo nenhum; pelo menos não há nenhuma razão decisiva para supô-lo; simplesmente não se sabe mais nada do processo, e dele não se terá mais nenhuma notícia.
Diante da Lei
Na catedral (um dos capítulos finais) K. confessa toda sua resignação com o processo perante o capelão das prisões que ali o aguardava. Para K., apesar de ter tido muito trabalho, nenhum resultado foi obtido até então. E se antes julgava que tudo acabaria bem, agora duvida de si próprio, perdendo as esperanças quanto ao desfecho do processo. O capelão, por sua vez, assim apresenta a parábola Diante da Lei:
Diante da Lei há um porteiro. Um homem do campo chega junto desse porteiro e pede para entrar. Mas o porteiro declara que por agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflecte, depois pergunta se então poderá entrar mais tarde. «É possível», diz o porteiro, «mas não agora.» Como a porta da Lei estava como sempre aberta, o porteiro afasta-se e o homem debruça-se para olhar para o interior, através da porta. Ao ver isto, o porteiro começa a rir e diz: «Se te atrai assim tanto, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Mas cuidado: eu sou poderoso. E não passo do último de todos os porteiros. Porque, de sala para sala, há porteiros, cada um mais poderoso do que o anterior. Mesmo a mim, a simples vista do terceiro já se torna insuportável.» O homem do campo não contava com semelhantes dificuldades; pensa ele que, todavia, a lei deve ser sempre acessível e para todos, mas agora que examina de mais perto o porteiro no seu manto de peles, com o grande nariz pontiagudo, a longa e fina barba negra à tártaro, acaba por decidir que prefere aguardar que lhe dêem licença para entrar. O porteiro dá-lhe uma banqueta e fá-lo sentar ao lado da porta. Fica ali sentado durante dias e anos. Faz numerosas tentativas para que o deixem entrar e aborrece o porteiro com os seus pedidos. O porteiro submete-o por vezes a pequenos interrogatórios, faz-lhe perguntas sobre a sua terra e sobre muitas outras coisas, mas são perguntas que não testemunham qualquer simpatia, como as que fazem os grandes senhores; e a conclusão é sempre a mesma: ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que efectuou inúmeros preparativos para a sua viagem, utiliza tudo, seja qual for o valor, para corromper o porteiro. Este último aceita tudo, mas diz ao mesmo tempo: «Aceito só para que tu não fiques com a impressão de ter negligenciado fosse o que fosse.» Durante estes numerosos anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros, e este, em primeiro lugar, parece-lhe ser o único obstáculo à sua entrada na Lei. Amaldiçoa a fatalidade, em voz alta durante os primeiros anos, depois envelhece e contenta-se em resmungar com os seus botões. Torna-se senil e como, durante todos estes anos passados a estudar o porteiro, também reparou nas pulgas na sua gola de peles, suplica mesmo às pulgas que o ajudem a fazer o porteiro mudar de opinião. Enfim, a vista diminui-lhe, e já não sabe se a obscuridade se espalha real mente em seu redor ou se são apenas os seus olhos que o enganam. Mas distingue na obscuridade uma luz que resplandece sem cessar através da entrada da Lei. Agora já não tem muito mais tempo de vida. Antes da sua morte, tudo o que viveu durante todo este tempo resume-se na sua mente numa pergunta que ainda não formulou ao porteiro. Faz-lhe sinal, porque já não consegue endireitar o corpo hirto. O porteiro é obrigado a inclinar-se para ele, porque as diferenças de altura modificaram-se muito em detrimento do velho: «Que queres tu saber ainda?», pergunta o porteiro, «tu és insaciável.» «Toda a gente se esforça por alcançar a lei», diz o homem, «como é que ninguém, excepto eu, solicitou a entrada durante todos estes anos?» O porteiro apercebe-se de que o fim do homem está próximo, e como é quase surdo, berra-lhe ao ouvido para se fazer ouvir. «Ninguém mais podia obter a autorização de entrar, porque esta entrada se destinava só a ti. Agora, vou-me embora e fecho-a.»
Mesmo não se tratando de uma obra acaba, a parábola oferece um possível desfecho para O Processo. Diante da Lei aparenta carregar consigo uma parte do significado de toda a tragédia enfrentada por K. O protagonista já não sabe o que fazer para se livrar do processo. Espera provar sua inocência de uma forma desconhecida e já não dispõe de forças para encontrar as devidas respostas. Todas as tentativas foram em vão; o processo consumiu sua vida, assim como a do homem diante da lei.
Como leitores, somos facilmente levados ao julgamento do quão fútil foram os esforços de K., e ao julgar dessa forma, estamos julgando nossos próprios esforços, pois estes também não escapam das futilidades cotidianas. Fazemos parte do tribunal tanto quanto os personagens de O Processo, e ao julgar as trivialidades de K. também nós condenamos. Eis o brilho da genialidade de Kafka.
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